Você assistiu o filme “Ensaio sobre a cegueira” ? Não ? Ok. Na verdade, eu também não assisti. Mas para entender o enredo deste post, basta assistir o vídeo abaixo – é tudo o que você precisa saber sobre o filme.
Trailer do Vídeo–Ensaio sobre A Cegueira
Se você não teve paciência de assistir ao vídeo, segue a sinopse do filme :
Uma inédita e inexplicável epidemia de cegueira atinge uma cidade. Chamada de "cegueira branca", já que as pessoas atingidas apenas passam a ver uma superfície leitosa, a doença surge inicialmente em um homem no trânsito e, pouco a pouco, se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo Estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. Nesta situação a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico (Julianne Moore), que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.
fonte : adoro cinema

Outra boa referência sobre o filme está no blog Cinema e Argumento. Vale a pena a leitura. Logo no início do post, esta frase diz tudo “Ensaio Sobre a Cegueira é uma história sobre a degradação da sociedade, os limites do ser humano, a falta de moralidade e o desespero atordoante.”
Agora que estamos alinhados e sabemos que o filme retrata o ser humano em momentos de desespero extremo, podemos seguir a diante. Eu estava no Shopping Bourbon, em São Paulo, no último sábado. Após um café em família, fui para o estacionamento buscar o meu carro – estava no piso denominado E4 e considerando que o shopping tem pelo menos 3 andares de loja, esse piso deve ser equivalente ao 7ºandar ou algo parecido. O shopping estava bastante cheio, mas não seria possível comparar como aqueles dias de compras as vésperas de algum feriado como Natal, por exemplo. Cheio, mas dentro do que os paulistas estão habituados para um sábado a tarde qualquer.
Peguei o carro, percorri alguns corredores até a saída e parei atrás de uma fila que parecia ser a fila de carros passando pela cancela de saída. Até então, não percebi que havia algo errado. Achei mesmo que era a fila normal de saída. E aí a “cegueira” começou. Fiquei aproximadamente 5 minutos parado sem sair do lugar. Ouvi as primeiras buzinadas. Andou um pouquinho e mais um tempo parado. Mais buzinadas. Alguém buzina “na orelha” do motorista de outro carro – em um estacionamento, imagine o eco. A dona do outro carro grita um série de palavrões em direção ao motorista que estava buzinando. Este por sua vez, buzina mais – me pareceu proposital até. A dona do carro, já fula da vida enfurecida, direciona uma dezena de palavrões ao autor dos “disparos”, que por sua vez, desce do carro e retribui outras dezenas de palavrões bem pertinho da orelha da moça. O post já poderia acabar aqui, a cena era realmente bizarra.
Estava intaurado o caos. Sob a sensação de estar preso, pessoas desciam dos carros e diziam barbaridades aos funcionários – aliás, funcionários totalmente despreparados, o que deixava as pessoas ainda mais irritadas. Conversando com outro motorista – se tivesse um baralho, teria dado tempo até de jogar uma partidinha de truco – ele contou que o problema era o trânsito na rua e todos os andares abaixo, que são rampas de estacionamento, estavam com o mesmo problema. Ou seja, eu que estava láaaaa pelo “sétimo andar” (Piso E4), ainda teria um longo caminho pela frente.
Já próximo da cancela, percebi que eu estava na fila errada. Eu estava na fila da esquerda e deveria mudar para a fila da direita pois estava utilizando o Sem Parar. Pedi para o motorista ao lado se eu poderia entrar na frente dele para poder mudar de faixa, pois onde eu estava a cancela não abriria. Em alto e bom tom ele respondeu que não e fechou o vidro. Tentei de novo. Fiz o mesmo pedido para o carro atrás e ouvi outro não. Ok. Tentei pela terceira vez e uma “alma caridosa” permitiu que eu entrasse na sua frente.
Mais adiante um carro fechou a passagem de outro e colodiram. Mais confusão. E assim foi durante todo o percurso até a saída do shopping – nem vou expressar o quanto acho que o shopping foi incompetente e como é mau estruturado, afinal, o leitor já sub-entendeu isso.
Toda essa confusão me remeteu ao que tinha lido sobre o filme. Aliás, parecia a descrição perfeita do filme. As pessoas estavam trasntornadas, pareciam bichos selvagens. Eu nunca havia presenciado nada igual.
Sobre pressão, o verdadeiro “eu” aparece…
Aparece, inclusive, no ambiente profissional. Eu tinha tempo de sobra parado naquele estacionamento e comecei a pensar “Será que conseguimos traçar um parelelo com o que acontece nos projetos de software ?” Eu juro que queria dizer que não. Mas não estou conseguindo. Em condições normais, aqueles motoristas que não me deram passagem, talvez tivessem outro comportamento. Muito provavelmente estavam tão irritados que sequer entenderam o meu pedido. O “não” estava engatilhado para qualquer qualquer coisa, sem mesmo entender o que estava sendo pedido.
Quando o projeto está atrasado, o respaldo da área usuária (solicitante e/ou demandante) também diminui. A tolerância a solicitações de novos entendimentos também diminiu e frases como “eu já expliquei isso para fulano” ou “De novo essa pergunta !?” passam a fazer parte da rotina.
O clima pesa. O projeto continua não andando e o “pega pra capá” corre solto. Isso só acaba quando alguém hierarquicamente em cargo mais alto ou respeitado pelos participantes pelo projeto interfere ou quando o projeto é entregue. Mas mesmo depois de entregue, você já encontrou com um usuário de cara feia para você no elevador ? Já recebeu um “bom dia” que mais parecia um “tomara que você chute o dedinho na cama e doa muito !!!” ?
Mude o cenário : o projeto foi perfeito ( projeto perfeito ?!), correu no prazo e a entrega foi conforme planejado. Imagine o mesmo encontro no elevador. Seria diferente, não ? Fato – claro que sempre tem um mais ranzinza, mas em geral seria assim.
No shopping, se as pessoas tivessem se organizado ou alguém competente tivesse direcionado os motoristas o caos poderia ter sido menor. As reações agressivas poderiam ter sido evitadas ou, pelo menos, poderiam ter sido moderadas. Como não houve, o caos tomou conta.
No projeto, se não houver um responsável, alguém realmente capacitado para direcionar as pessoas e até mesmo as áreas, o caos também vem – e rápido !
Por isso em qualquer condição que o projeto estiver, favorável ou adversa, mantenha o controle – emocional inclusive - formal das atividades e etapas. Documente. Notifique. Tenha certeza que todos estão entendendo a situação e sabem quais serão os próximos passos. Contenha os ânimos !
Se os motoristas do shopping soubessem que o problema era o trânsito na rua e que aquela fila era apenas reflexo disso, talvez os funcionários do estacionamento tivessem sido poupados de um bocado de ofensas. Este funcionário, aliás, vai estar lá no dia seguinte e imagine como ele estará empolgado para trabalhar e encarar o “chato” do cliente !?
Láááa em cima, voltando ao filme, será que haveria solução ? Talvez não, pois eram muitas pessoas contaminadas e a única pessoa – não especialista e/ou preparada – para lidar com a situação também tinha que garantir a sua própria sobrevivência.
Ter alguém despreparado como referência pode ser um erro fatal. Afinal, este não tem a obrigação de entregar, nem de cobrar. Ele deve “apenas” servir de referência e se o projeto naufragar, ele sabe que dificilmente lhe será atribuída alguma responsabilidade. Se tiver o mínimo de malícia, facilmente direcionará a responsabilidade para quem solicitou e/ou para quem implementou.
Todo projeto precisa de um pai. Mas um pai capacitado. Diferente disso, será apenas mais um para procurar culpados e se comportar como um bicho diante da pressão.